Análise

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Anonimato #ProtestosBR
nas redes e nas ruas

Anonimato e multidão

Antonio Negri (2004), em seu artigo “Para uma definição ontológica da multidão” destaca algumas premissas para definir a multidão enquanto “conceito de classe”. Ao contrário da tradição intelectual moderna (Hobbes, Rousseau e Hegel) que relacionava o conceito de povo à transcendência do soberano e o reduzia a uma massa de indivíduos que precisariam ser liderados, “a teoria da multidão exige, ao contrário, que os sujeitos falem por si mesmos: trata-se muito mais de singularidades não-representáveis que de indivíduos proprietários” (NEGRI, 2004, p.15).

Ainda hoje, o entendimento ‘moderno’ da multidão “como caos e como guerra”, apresenta-se na pragmática política. No contexto dos #ProtestosBR de 2013, o medo à multidão esteve presente nas falas e atitudes da  polícia, dos governantes, da mídia e de uma parcela significativa da sociedade civil que condenou as manifestações durante os meses de Junho e Julho, classificando-as de sem sentido, desorganizadas e despropositadas. Estas manifestações foram condenadas em especial por escaparem da lógica histórica tradicional de manifestações políticas organizadas, tais como marchas, comícios e plenárias costumeiramente convocadas por associações e lideranças visíveis, constituídas e declaradas (como partidos, uniões e sindicatos).

A ocupação e interdição de espaços por manifestantes que não obedecem a uma liderança certa e, em certos casos, a destruição de patrimônios públicos e privados, foram rapidamente associados a termos como vandalismo e baderna e remetidos à ‘selvageria’ que caracterizaria a multidão sem rosto. Muitas vezes, estas ações de violência foram explicadas como um movimento “à parte”, “infiltrado” na manifestação “pacífica e ordeira”.

No entanto, a multidão dos protestos é feita de multiplicidade. Não podemos tratar de um dentro e um fora, uma vez que uma polifonia de vozes, palavras de ordem, cartazes, pautas, imagens e depoimentos são constantemente enunciados em meio às diferenças que os constituem. O anonimato é nesse contexto um tema controverso que traz à tona a crise da representatividade política contemporânea (e por outro lado, a ideia da “não representatividade” para o contexto da ação política direta).

A estratégia do anonimato teve diferentes desdobramentos e associações nas ruas e nas redes. É importante notar justamente a multiplicidade desses usos e a impossibilidade de fechá-los em explicações deterministas de uma representação social, compreendendo que o próprio conceito de multidão “desafia qualquer representação por se tratar de uma multiplicidade incomensurável” (NEGRI, 2004, p.17). O anonimato não representa os manifestantes e nem as manifestações, mas é considerado como ponto de disputa onde se tornam visíveis as discussões políticas da atualidade em torno das ideias de ação/performance política e vigilância/controle. Neste contexto, o anonimato responde pelo desconhecido ameaçador, mas também pelo irrepresentável múltiplo e ativo. O anonimato é múltiplo, assim como o é a multidão, e, apesar de por vezes ser advogado por alguns atores o uso da máscara como princípio de uniformidade estética (Black Bloc’s e Anonymous), esta aparente uniformidade é apenas a face visível do múltiplo que a atualiza. ”O povo é sempre representado como unidade, ao passo que a multidão não é representável” (NEGRI, 2004, p.17).

Apesar de não ser representável, a multidão é capaz de agir, e também de se autogerir e autogovernar. O potencial criativo da multidão deve ser levado em conta. Negri utiliza o termo “General Intellect” para essa “tendência, constitutiva da multidão, em direção a modos de expressão produtiva cada vez mais imateriais e intelectuais” (NEGRI, 2004, p.17). Durante os #ProtestosBR, a oscilação da multidão de corpos e intelectos nas ruas e nas redes marcou a amplitude das partilhas que as manifestações políticas contemporâneas engendram em seus processos autoconstituintes, orgânicos e rizomáticos.  Em meio aos protestos, foram postos em jogo ensaios para outras formas de vivência e de subjetivação. Nas manifestações em curso, viu-se a premência do objetivo de ocupar espaços, estabelecer vínculos e re-inventar formas de colaboração e coexistência. Estas ações associam-se a produção de subjetividades na atualidade e, conforme nos relembra Negri, “a produção de subjetividade, a produção que o sujeito faz de si mesmo é, simultaneamente, produção da consistência da multidão – já que a multidão é um conjunto de singularidades” (id., ib., p.19).

As performances políticas e estéticas do anonimato evidenciaram o corpo como território de disputa subjetiva e social, justamente em um contexto em que são constantemente traçadas novas estratégias de captura para a produção de desejos e exploração do trabalho imaterial. No contexto do capitalismo cognitivo, reinventar o espaço ocupado pelo corpo, suas representações e ações em meio à sociedade fazem parte de uma disputa política em que o anonimato das multidões toma parte. Trata-se de um tensionamento vinculado às tecnologias de imagem e de internet, enquanto espaços ao mesmo tempo de vigilância/controle e de produção de trabalho imaterial. Enquanto a vigilância através das imagens e outros vetores de controle se tornam mais prementes na sociedade digital; concomitantemente, a estetização da política realça a imagem como vetor sensível de mobilização, relocando a atividade de produção de imagens enquanto prática política direcionada e intencional.

Imagens do anonimato: estética, ética e política 

O anonimato é expressão de um corpo, o corpo da multidão ou multidão de corpos, conforme afirma Negri (2004). Este é atravessado por falas que ensaiam a sua liberdade, “a parrhesia (a livre fala) do governado que pode, que deve interpelar o governo em nome do saber, da experiência que ele tem, a partir do fato de que ele é cidadão, sobre o que o outro faz, sobre o sentido de sua ação, sobre as decisões que ele tomou.” (FOUCAULT, 2010, p.292). Corpo e fala convergindo para a constituição do comum, do saber conviver, do social. As tentativas de ir além do público e do privado, em novos estatutos políticos constituídos a cada experiência, em re-territorializações dos espaços públicos que racham com a lógica funcionalista pré-estabelecida para fazer vigorar “ordens não estabelecidas ‘a priori’, mas [que] se criam segundo a necessidade creativa nascente”, como afirmou Hélio Oiticica, se configuram em “relações imaginativo-estruturais” [1] que buscam, a partir da ação política e estética, repensar o convívio social.

Em meio ao mapeamento dos gestos e ações estudados no curso desta cartografia, o anonimato da multidão coloca-se como expressão de um corpo que constitui ativamente sua fala em meio às relações estéticas do comum partilhado. Neste contexto, precisamos compreender a estética como a articulação entre ver, fazer e falar (RANCIÈRE, 2012) – ações que estão necessariamente articuladas aos regimes de visibilidade e visualidade. Ao instaurar-se como controvérsia, o anonimato, especialmente em seu caráter expressamente visual de usos na rua, tão continuamente filmado e fotografado em meios aos #ProtestosBR, instaura-se como ponto de dissenso em meio aos regimes de visibilidade e representatividade política tradicionais.

Ao questionarem a representatividade política a partir da própria negação de identidade, os anônimos (não apenas Anonymous) afirmam sua ação política a partir da performance de seus corpos (presença, atos, gestos) e pela enunciação de suas falas (cartazes, gritos de ordem). Neste sentido, é importante entender a possibilidade do anonimato enquanto performance estética ao lado da impossibilidade de dissociação entre a estética e a política. Pois se a estética pode ser entendida como articulação entre ver, fazer e falar, “a política ocupa-se do que se vê e do que se pode dizer sobre o que é visto, de quem tem competência para ver e qualidade para dizer, das propriedades do espaço e dos possíveis tempos” (RANCIÈRE, 2005, p.17).

A re-constituição dos espaços e dos tempos a partir das performances da multidão nas ruas atualizam possibilidades tornadas impensáveis, mas que permanecem latentes. Ocupar as ruas centrais da cidade em plena hora do rush para caminhar e cantar sobre elas é apenas uma das formas pelas quais os protestos mostram a expressão política e estética de suas ações. O anonimato, ao propor formas de ação e influencia política não baseadas em um principio de identidade afirma também uma outra possibilidade do jogo político, uma em que a ideia representatividade não seja o valor central e na qual a ação e a performance conjunta colocam-se como pontos centrais da experiência.

Os imbricamentos entre multidão e a performance política do anonimato nas redes e nas ruas colocam-se no entrecruzamento indissociável entre estética e política. Política entre as ruas e as redes, cujas competências são corporais, afetivas, cognitivas, relacionais, discursivas, éticas e cujas ações envolvem tanto um engajamento corporal, quanto a produção de um trabalho imaterial de articulação de conteúdos ao mesmo tempo informativos e mobilizadores.

A disputa em torno das competências do dizer e do fazer são uma importante chave de leitura para as ações do anonimato nos #ProtestosBR, quando olhamos com atenção os atores envolvidos, sejam os diversos perfis e comunidades Anonymous e Black Blocs nas redes, ou os manifestantes e policiais anônimos nas ruas. Um ator em cena nunca age sozinho[2]; afetam-se mutuamente, colocam-se em cena, jogam. Dança coletiva dos atores mascarados.

vandalo marginal

A mascara é um instrumento que possibilita a não-representabilidade dos sujeitos cuja fala ressoa fortemente do corpo coletivo. Quando se trata de uma camisa no rosto, essa máscara pode incorporar os símbolos da marginalidade que, como afirmara Hélio Oiticica, é em si um heroísmo. “Seja marginal, seja herói”, nas palavras de Hélio; “seja vândalo, seja herói”, nas palavras coletivas reunidas e afirmadas em um meme circulado no facebook, em crítica ao discurso reducionista dos “vândalos infiltrados na manifestação”. Marginal ou vândalo, no enfrentamento direto com o poder do estado e do capital, na recusa de tais poderes, nos investimentos em interromper e desviar suas ações opressoras, a multidão se expressa como aquilo que foge ao controle das categorizações identificadoras promovidas pela ordem do estado e por tecnologias políticas de controle (FOUCAULT, 2010), nos conhecidos usos da estatística como ciência estratégica de governo dos indivíduos.

fotografia e vigilancia da policia em protestos

Podemos considerar que renunciar ao rosto é um modo de abster-se do valor excessivo que se dá a personificações modulares e à facilidade de controle e vigilância associada a esta personificação. Para Deleuze & Guattari (2008) o espaço do rosto é antes um espaço da produção social de rostos, rostos conformes, rostos ‘dignos’ e rostos ‘infames’, separados e dualizados de acordo com a norma. Nesta perspectiva, a negação do rosto é uma forma de potência em que nega-se a estabilidade da identidade e experimenta-se a possibilidade do ser-outro – a máscara é a própria evasão das separações e dualizações da norma de identidade que correspondem à lógica social da individualização pelo rosto. Ao dissolver a pessoalidade do rosto e as modulações dos papéis sociais, a máscara tende a liberar o corpo dos engajamentos normativos. A máscara é performativa porque implica em um modo de dizer que amplia o próprio sentido da fala política como performance. No entanto, e é sempre importante ressaltar, o uso da máscara não resulta em uniformidade, mas antes em multiplicidades possíveis .

Para Negri (2004, p.18), “a multidão constitui um ator social ativo, uma multiplicidade que age. […] Trata-se, na verdade, de um ator ativo da auto-organização”, e aqui consideraremos as imagens que permeiam esses processos como constitutivas dessa multidão, rastros do seu movimento e proposições que buscam de algum modo essa auto-organização, e que realçam a complexidade desse ato que é cobrir, esconder, proteger, recusar a expressividade do rosto, que para as imagens técnicas sempre esteve associado ao duplo identidade/identificação [1].

Analisar as imagens e outros modos de expressão que perpassaram os #ProtestosBR implica em uma postura reflexiva que entenda cada ator e suas respectivas singularidades como um ponto que age na rede [2], e que em si fala da rede como um todo, a partir daquilo que consegue traduzir e mediar (LATOUR, 2007). No entre-espaço das ruas e das redes, articula-se uma produção coletiva de conteúdos, muitas vezes produzidos e compartilhados por anônimos, por todos e por qualquer um. Em confronto com os discursos oficiais da mídia tradicional, da polícia e do governo sobre as manifestações, esta produção coletiva anônima coloca-se politicamente em meio às disputas de competência que caracterizam a partilha do sensível (RANCIÈRE, 2005).

É o poder que cada um tem de traduzir à sua maneira o que percebe, de relacionar isso com a aventura intelectual singular que o torna semelhante a qualquer outro, à medida que essa aventura não se assemelha a nenhuma outra. Esse poder comum da igualdade das inteligências liga indivíduos, faz que eles intercambiem suas aventuras intelectuais, à medida que os mantém separados um dos outros, igualmente capazes de utilizar o poder de todos para traçar seu caminho próprio. O que nossas performances comprovam […] não é a nossa participação num poder encarnado na comunidade. É a capacidade dos anônimos, a capacidade que torna cada um igual a qualquer outro. (RANCIÈRE, 2012, p. 20-21, grifo nosso).

Sejam montagens ou apenas fragmentos imagéticos, as produções imagéticas que circularam na rede vieram de dentro dos movimentos, daqueles que saem para as ruas com suas câmeras e aparelhos celulares, que postam em seus perfis ou se organizam em coletivos criativos, que dedicam seu tempo para transmitir ao vivo uma manifestação, para criar um conteúdo com ou sem assinatura, para denunciar, ou ainda, para replicar, compartilhar e deste modo, ampliar a rede das produções que já existem.

Na descrição dos vídeos, vimos exemplos de produções audiovisuais compartilhadas em redes sociais a partir de coletivos e intenções diferentes. Realizada por um canal on-line de um jornal impresso (“mídia de massa” em sua versão “multimídia”) ou em uma pequena produtora audiovisual, ou ainda por usuários comuns, quase indiscerníveis, cuja autoria é pouco notada.  Pois, por mais que existam em certos casos intenções autorais, as cadeias de compartilhamento demonstram que a potência dessas imagens está em circular e se perder em meio a multidão que ajuda a constituir. Sua força está no que poderíamos compreender como uma partilha do sensível, conforme a define Jacques Rancière (2005) enquanto campo da relação entre estética e política. 

Denomino partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa, portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha. (RANCIÈRE, 2005, p.15)

O conceito de partilha do sensível aqui converge com a própria noção de Multidão, enquanto algo em constante re-constituição, que só existe enquanto partilha de um comum, entendido não como filiação decisiva, mas como ligação transitória entre singularidades. O comum não seria então aquilo que achata o múltiplo, mas que o reúne em torno de algo, um ‘algo’ constituído pelas ações das próprias singularidades postas em jogo. Os processos de produção de subjetividade que se encorpam nas falas e ações dos que constituem a multidão é que engendram a produção da consistência da mesma, “o nome da “multidão” é, a um só tempo, sujeito e produto da prática coletiva”. (NEGRI, 2004, p. 20).

As montagens imagéticas, textuais e audiovisuais conectam fragmentos do vivido nas manifestações, funcionando como ecos que fazem proliferar nas redes a dinâmica das ruas. Nas imagens produzidas e veiculadas em meio aos #ProtestosBR, algumas problemáticas em comum foram evidenciadas, como a relação entre a violência do estado (expressa pelas forças policiais) e o anonimato dos manifestantes. O entre jogo destas imagens abordando tanto o anonimato da polícia como o anonimato dos manifestantes ressalta a localização da controvérsia do anonimato em meio às situações de controle e o potencial criativo da multidão em questioná-lo ao mesmo tempo em que se afirma, positivamente, como experiência política possível.

Anonimato e Resistência

Acreditamos que à luz dos desafios e das possibilidades de nosso mundo, é necessário repensar os conceitos políticos mais básicos, tais como poder, resistência, multidão e democracia. (HARDT & NEGRI, 2012, p.16)

As ações de resistência em regimes de poder muito assimétricos costumam ser realizadas utilizando o anonimato como estratégia de autopreservação. Foi o caso dos ninjas, guerreiros japoneses surgidos no Japão feudal, por volta do século XIV. Eles foram mestres da espionagem e estratégias de invisibilidade. Também transformaram os instrumentos normalmente utilizados na agricultura e no cotidiano em geral dos camponeses (foices, gadanhos, tonfas, nunchakus e mesmo banquinhos e leques) em armas de guerra, uma vez que somente os samurais – a classe guerreira – podiam portar uma espada. Nesse sentido, os ninjas foram especialistas em artes de guerra não ortodoxas, “profanando” o uso cotidiano e simbólico desses instrumentos, tão ligados à classe camponesa, contra a espada do samurai, que representava a honra do guerreiro e mobilizava sua filosofia de vida e suas relações sociais. A emergência dessa figura na cultura de massa e urbana se dá a partir da década de 1970, com os filmes de artes marciais, que foram popularizados especialmente pelo filósofo, roteirista, coreógrafo e ator Bruce Lee (1943 – 1971).

As mascaras também foram usadas em outros movimentos de resistência na contemporaneidade, como o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), movimento de luta armada com maioria indígena inspirado na luta de Emiliano Zapata contra o regime autocrático de Porfirio Díaz, que levou o México à revolução em 1910. O EZLN tornou-se mundialmente conhecido em 1994, com ações de guerrilha em resposta à criação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Em 2005, o EZLN anunciou que deixaria as armas e faria política.

No contexto urbano dos #ProtestosBR, o movimento dos Black Bloc’s tornou-se um dos ícones da resistência e anonimato frente ao poder. O Black Bloc, que pode ser entendido tanto como movimento quanto como tática, ficou mundialmente conhecido em 1999, com os confrontos ocorridos em Seattle, decorrentes da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). A defesa do anarquismo como possibilidade política é um dos pontos de ligação com o EZLN.

Os indivíduos que agem nos Black Bloc’s – entendendo suas ações como performances políticas radicais – também realizam ações de destruição de símbolos da opressão econômica (agências bancárias, propriedades de multinacionais, vitrines de lojas de artigos supérfluos de luxo, sedes de instituições públicas estatais) como foi o caso da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), ocorrido em junho de 2013. Na ocasião, dois carros foram incendiados e a polícia foi expulsa do local pelos manifestantes.

Para Deleuze, existe uma grande ligação entre ato de resistência e obra de arte. Nesse contexto, as mascaras, bandeiras, os sprays de tinta e o coquetel molotov (bomba incendiária caseira) são símbolos de uma estética da guerrilha urbana mundial que são disseminados na forma de imagens. No contexto mundial recente, a circulação destas imagens tem sido tão mais intensa quanto a própria descentralização da geração de conteúdos. Manifestações dos últimos anos como o #15M na Espanha, o Occupy Wall Street nos EUA, a Primavera Árabe e, mais recentemente e de modo concomitante com os protestos brasileiros, a Ocupação do Parque Taksim Gezi na Turquia povoaram o imaginário dos protestos – a máscara e o rosto encoberto servindo muitas vezes como ponto de ligação visual entre os protestos.

mascaras

O registro fotográfico e videográfico independente e a circulação de conteúdos na internet utilizados estrategicamente nos eventos mundiais anteriores serviram como exemplos para as ações desenvolvidas pelos atores no contexto dos #ProtestosBR. Da mesma forma, a cobertura da imprensa internacional especialmente oportunizada pela realização da Copa das Confederações tornou-se um vetor de visibilidade a ser explorado em meio às táticas de resistência – por vezes, em especial nas manifestações nas cercanias dos estádios foram usadas não apenas as máscaras de Guy Fawkes (associadas mundialmente aos protestos da atualidade), mas também cartazes escritos em outras línguas. Do mesmo modo, ocorreram pelo mundo manifestações menores em apoio a brasileiros (assim também como aos turcos), mostrando a permeabilidade entre rede e rua a partir da circulação de conteúdos visuais, textuais e audiovisuais elaborados e transmitidos em meio às redes sociotécnicas.

Todo ato de resistência não é uma obra de arte, embora de uma certa maneira ela faça parte dele. Toda obra de arte não é um ato de resistência, e no entanto, de uma certa maneira, ela acaba sendo. (DELEUZE, 1987, p.13).

No contexto dos #ProtestosBR podemos destacar, portanto, a presença de ações estéticas e políticas que conectam-se estreitamente à imagética do protesto gerado em manifestações anteriores. É importante ressaltar que esta imagética de protestos serve de exemplo, mas não é necessariamente uma replicação, posto que seus usos tem especificidades do contexto, especialmente ao levarmos em conta que o imaginário de protesto no Brasil também está intensamente ligado às manifestações dos Caras Pintadas em 1992, do sindicalismo brasileiro dos anos 1980 e das marchas estudantis contra a ditadura militar, em especial a marcha dos 100 mil, em 26 de junho de 1968.

Ainda assim, é possível afirmar que há uma conexão entre as ações ligadas ao anonimato presentes nos #ProtestosBR e estratégias de guerrilha urbana empregadas em outros protestos mundiais (sendo o uso das táticas Black Bloc o exemplo mais claro desta conexão). As estratégias de guerrilha urbana utilizadas nos #ProtestosBR  podem ser colocadas, na perspectiva de Hakim Bey, como ações de Arte-Sabotagem: uma forma de resistência que está ligada ao papel simbólico que é desempenhado por galerias e museus, de separação, de subtração, que retiram do cotidiano a beleza do mundo, sacralizando-a através de um valor de culto que supervalorizam. Aqui, a exposição indica um deslocamento, ou seja a “ex-posição” de algo em relação a um lugar originário, a uma circulação viva e livre. Profanar os espaços que tradicionalmente oprimem a população é uma forma de dar visibilidade às suas ações. Este tipo de estratégia política de subtração entrou em jogo em meio aos #ProtestosBR especialmente a partir dos dias 17 e 20 de Junho.

Se certas galerias e museus merecem, de vez em quando, receber uma tijolada pela janela – não a destruição, mas sim uma sacudida na sua complacência –, então o que dizer dos BANCOS? Galerias transformam beleza em mercadoria, mas bancos transmutam a Imaginação em prestações e dívidas. O mundo não ganharia um pouco mais de beleza com cada banco que tremesse…ou caísse? Mas como? A Arte-Sabotagem deve ficar longe da política (é tão chata!) – mas não dos bancos. (BEY, 2007, p.12)

Após os protestos dos dias 17 e 20 de Junho, uma figura anônima em especial passa a se destacar na multidão – após a associação oficial da mídia de que manifestantes (em especial os mascarados) não passavam de desordeiros que deveriam ser controlados, e da repressão policial repetida, começa a se destacar em meio às redes e protestos a figura política do Black Bloc. Em meio às batalhas por legitimidade política nas ruas, a figura do Black Bloc passa a dividir espaço na controvérsia do anonimato com os demais mascarados Anonymous (nas ruas e nas redes).

O anonimato entre os grupos de Black Bloc evita a perseguição dos sujeitos que desempenham um papel de Arte-sabotagem durante as manifestações. Para os Black Bloc, sua ação é performance política e intervenção direta. Porém, ao mesmo tempo que esta percepção não gera uma unidade de grupo aos Black Bloc, a própria atuação e resultado de performances destes em meio ao jogo político obriga à constante reformulação de táticas, métodos, objetivos e motivações. No jogo de imagens, qualquer um pode jogar uma pedra ou um coquetel molotov – mas como saber quem fará pelos mesmos motivos? O anonimato dos Black Bloc serve como maneira de evadir-se das sanções do estado enquanto são performadas as ações de Arte-sabotagem. No entanto, como o rosto por trás do lenço pode ser qualquer um, como garantir a unidade de propósito destas ações?

No contexto das ações em protesto, o anonimato se coloca como uma forma fundamental de resistência em relação ao uso cada vez maior de sistemas de vigilância e controle. Todavia, o anonimato cria um problema a partir de sua própria multiplicidade, pois atrás da máscara pode estar qualquer um e podem se esconder quaisquer motivações. No entanto, se há um traço que persistiu ao longo dos protestos foi a ideia da performance política como ação autorrepresentativa, e o pensamento desta ação como ação contínua de construção de possibilidades.

precisamos ocupa cabral

Por isto, por mais que por vezes o anonimato pareça apresentar o temível desconhecido improvável, as ações de cooperação contínua e os protestos de longo prazo (como a ocupação de câmaras legislativas por todo país) demonstraram, com maior ou menor grau de sucesso, as possibilidades colaborativas de autogerenciamento das multidões enquanto conjunto de multiplicidades anônimas.  Para as ações políticas constitutivas que deram forma a maior parte das manifestações, não há problema ser um desconhecido, desde que se coloque como mais um na construção colaborativa de outras possibilidades.

De modo mais específico, as imagens produzidas em meio à multidão de anônimos e mascarados trazem consigo fragmentos desse poder coletivo que perpassa toda a rede formada em torno dos #ProtestosBR e que se estabelecem como espaço de decisão política. Elas não somente registram acontecimentos e/ou possibilitam a identificação, mas atravessam essas pessoas de inúmeros significados e estéticas para além do documental e do ficcional, constituindo-se num ator caleidoscópico com vida e ações próprias, que formulam estratégias para uma existência múltipla e ainda assim, formulando narrativas específicas dentro das redes.

Referências

BEY, Hakim. Caos: terrorismo poético e outros crimes exemplares. Disponível em: https://n-1.cc/file/view/1696499/caos-terrorismo-poetico-and-outros-crimes-exemplares-de-hakim-bey (Acesso em 22 de agosto de 2013)

DELEUZE, Gilles. O ato de criação: palestra de 1987. Disponível em: http://search.4shared.com/postDownload/jgTfmQVI/Gilles_Deleuze_-_O_ato_de_Cria.html (Acesso em 22 de agosto de 2013)

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: Record, 2012.

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